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Coluna mensal de Rodrigo Andolfato no Jornal Folha da Região

Revisão dos ‘tempos estranhos’

No início de 2015, o Ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, usou uma frase que, já naquele momento, ilustrava o que vivenciaríamos neste ano. “Vivemos tempos estranhos”, destacou ele. Fez referência a uma realidade “em que se nota a perda de parâmetros, o abandono a princípios, o dito passando por não dito, o certo por errado, e vice-versa”.  Mas por que, afinal, este tempo se tornou estranho? 
 
Valores entraram em xeque em 2015. E a referência aqui não é apenas aos valores monetários, mas sim aos ligados às condutas. Triste constatação: aqueles que seriam a parcela representativa da população, eleitos para atuar pelo bem comum, são o primeiro exemplo de como não agir. Claro, não devemos generalizar, mas é fato que alguns “representantes públicos” não estão alinhados com a opinião e expectativa pública.
 
Em contrapartida, a participação, mobilização e consciência pública também parecem sofrer de algumas disfunções. Sem generalizar, obviamente, mas são evidentes as demonstrações da falta de compromisso, respeito, caridade, entre outras virtudes tão esperadas e necessárias. 
 
Um caso em Araçatuba chamou a atenção, recentemente. Algumas árvores foram plantadas por uma empresa na via pública, para contribuir com a arborização da cidade. Ocorreu que, sem explicação clara até o momento, alguns homens simplesmente quebraram ao meio todas essas mudas de árvores.  
 
Atitudes como essa nos levam a refletir sobre a consciência humana e a questionar: qual a nossa representatividade, nossa integração com o coletivo? O que fazemos pela nossa comunidade? Parece que alguns indivíduos estão, realmente, desconectados da conexão que existe entre os membros de uma mesma sociedade. Não observam (nem respeitam) o impacto de suas ações no coletivo. 
 
É importante destacar o quão importante é a participação social consciente, das mais simples atitudes (como proteger árvores) até os movimentos que promovam mudanças para o bem social. Isso é algo a ser fortalecido na população brasileira.
 
Afinal, reclamar sem reagir, não faz sentido. Por exemplo: vivenciamos este ano o descontentamento com ações e reações de representantes públicos. Mas grande parte das mobilizações se deu apenas na esfera virtual. Manifestações sociais que buscavam reunir pessoas nas ruas em prol de reivindicações legítimas ficaram aquém das expectativas. 
 
Empresários, empreendedores, os trabalhadores em geral precisam atuar mais incisivamente como cidadãos – buscando conhecer plenamente os seus direitos civis e políticos e desempenhar os deveres que essa condição os atribui.
 
É preciso, inclusive, maior proximidade entre as classes sociais no debate franco sobre os temas mais particulares do cotidiano. Diferente do que é propagado por governos populistas, que patrões e empregados estão em lados opostos, estes “tempos estranhos” solicitam que todos se sentem na mesma mesa e discutam as problemáticas e alternativas para o atual momento.
 
Vale ressaltar que quem remunera um trabalhador não é o empresário que oferece o posto de trabalho, mas os clientes e usuários dos produtos dessa empresa – se não houver demanda não há razão para a existência de um negócio. Nesse contexto, se as medidas econômicas de um governo resultam na diminuição do poder de compra desses clientes e usuários, é provável que empresas tenham que diminuir sua produção, fazer cortes de pessoal, e até mesmo fechar o empreendimento.  
 
Patrões e empregados devem ter em mente esse sistema e observar quem é o real “inimigo” comum. Estar atento às ações do Estado e ao impacto dessas medidas na nossa vida é fundamental. E para isso é preciso envolvimento.   
 
Não podemos esquecer que o grande problema dos tempos estranhos é que eles caminham sempre para tempos de guerra, situação na qual impera o caos, a desordem e a perda dos nossos maiores valores. A saída para os “tempos estranhos” é a revisão de princípios, é desmitificar conceitos que vêm sendo disseminados há anos - como o de que patrões e empregados estão de lados opostos. Precisamos buscar e promover ações que promovam benefícios ao coletivo. E, sempre que preciso, que o povo vá às ruas e participe, exercitando a sua cidadania.

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