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Coluna mensal de Rodrigo Andolfato no Jornal Folha da Região

Escravidão decretada

Publicado no jornal Folha da Região no dia 27 de outubro de 2015

Desde 2010, alerto parceiros e colaboradores sobre a distorção que se construía na relação capital-trabalho. Naquela época, vale lembrar, a balança pesava a favor do trabalho, com a apresentação de “possibilidades” até então nunca vivenciadas (com grande oferta de emprego). Porém, era possível vislumbrar que, num futuro próximo, a mesma distorção poderia mudar de lado e favorecer o capital (entenda-se: estar a favor do patrão). O cenário atual mostra, justamente, essa distorção. 
 
O panorama de recessão de hoje, que conta também com a estagnação e diminuição da oferta de postos de trabalho, é composto por muitas pessoas que se endividaram por meio do cartão de crédito, crediários, financiamento de automóveis, compra da casa própria e até mesmo com financiamento estudantil. 
 
As “possibilidades” de crédito e de investimentos foram lastreadas por nossos governantes, sob a bandeira de um futuro promissor. O que faltou esclarecer e reforçar entre a sociedade foi uma questão financeira simples: para cada despesa que fazemos em nossas vidas devemos ter uma receita maior ou igual a tal despesa. 
 
Contudo, sem contar com esse tipo de percepção e orientação, e considerando as promessas de desenvolvimento e evolução, boa parte dos brasileiros passou a consumir como se vivesse num país estabilizado economicamente, cheio de possibilidades, onde haveria oportunidades de trabalho infinitas. 
 
Por exemplo, as pessoas compraram carros novos, dando entradas de 20% do valor do veículo, comprometendo-se com o parcelamento, investindo em um bem que no primeiro ano perde grande parte de seu valor. Em muitos casos, elas desconsideraram o fato de que se não fosse possível pagar o automóvel, ele poderia ser tomado e a dívida não seria extinta. 
 
No mesmo ímpeto, alguns também se comprometeram com a compra da casa própria, sem avaliar as consequências no caso de inadimplência. Por ter seu financiamento feito através da lei da alienação fiduciária, o imóvel pode ser retomado pelo banco e, na maioria dos casos, o cidadão não recebe de volta o que já foi pago.  
 
Considerando outro tipo de investimento muito importante, o na Educação, é possível verificar iguais descompassos entre “possibilidades” e realidade. Há aqueles que estão estudando por meio de financiamento estudantil, esperando se formar e conquistar um emprego que o remunere baseado no curso superior concluído.
 
Nesse caso, é muito triste pensar que há a possibilidade desses estudantes formados não conseguirem colocação no mercado de trabalho, carregando consigo a dívida do financiamento estudantil (e o pior: ficarem frustrados por não terem emprego em sua área de formação; submetendo-se ao subemprego). 
 
Ainda nesse contexto, muitos brasileiros se viram aptos a utilizar cartão de crédito. E se lançaram a pior de todas as armadilhas! Nela, não se dá nada em garantia para o banco, que não toma nenhum bem do devedor; mas nessa modalidade de empréstimo, os juros são estratosféricos. 
 
Enfim, com a promessa de um futuro ensolarado, as pessoas consumiram acreditando naquilo que receberiam em longo prazo, sem contar com uma futura recessão que colocaria em risco seus recebimentos, seus salários promissores, o crédito em vários aspectos. 
 
O descompasso entre as possibilidades outrora propagadas e a situação real resulta hoje na angústia de muitas famílias para quitar compromissos assumidos, com medo da instabilidade, inclusive na manutenção do seu trabalho. 
 
Aqueles que não se encontram em nenhuma dessas armadilhas modernas devem levantar as mãos para o céu. Certamente, é o momento de planejar estratégias para o fortalecimento empresarial e também dos postos de trabalho. É preciso fazer mais que o esperado, de maneira que o empenho seja reconhecido como fundamental. A iniciativa, proatividade, e comprometimento são as principais armas para qualquer crise.   
 
Os cidadãos que se enquadram nos casos de dívidas, mas que mantêm os seus empregos, precisam redobrar a energia para o trabalho e adequar os hábitos de consumo para não piorarem os comprometimentos financeiros - uma prisão sem grades, que sujeita o cidadão a juros e taxas insaciáveis.    
 
Por fim, aqueles que perderam seu emprego, e que adquiriram empréstimos e dívidas, não devem desistir de lutar e buscar/apresentar diferenciais para se destacar, se liberar e progredir. Além disso, não devem se esquecer de se rebelarem contra aqueles que, mentindo, decretaram sua escravidão. 

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