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Coluna mensal de Rodrigo Andolfato no Jornal Folha da Região

A revolução começa em nós

Imagine a seguinte situação: você chega na sua casa e encontra três empregas domésticas trabalhando, seu cônjuge aparece com um carro de modelo requintado, além de ostentar um celular ultramoderno. Nesse mesmo momento, você descobre que a mensalidade do plano de saúde não foi paga e o seu filho está sendo expulso da escola também por falta de pagamento. Tudo isso aconteceu porque você fez um acordo com o seu cônjuge definindo que, por determinado período, ele seria responsável pelas finanças da casa, pelos compromissos e investimentos necessários para o bom andamento da vida da família. 
 
Ao se deparar com a situação caótica apresentada, o que você faria? Deixaria tudo como está (correndo o risco da situação se complicar ainda mais), e esperaria passar o tempo do acordo feito entre vocês, ou iria interferir, intervir?
 
Pensando sobre o seu posicionamento em outra circunstância, o que você faria se observasse que as despesas do condomínio onde mora são maiores que a receita adquirida? Além disso, você percebeu problemas com a estrutura do prédio, por exemplo, e não há atenção do síndico para o caso. Nessa hipótese, você deixaria esse “representante” seguir até a próxima eleição do condomínio ou você convocaria uma assembleia, com a intenção de destituí-lo e resolver o problema? 
 
A proposta dessa reflexão serve, simplesmente, para observarmos o quanto a nossa postura é incoerente. Afinal, se acompanhamos de forma incisiva e criteriosa os balanços e as finanças de nossa casa, de nosso condomínio, por que não fazemos isso diante dos atos da esfera pública?   
 
Nesse contexto, há mais a se considerar: se há um buraco na rua em frente a minha casa e eu me calo, por que eu vou gritar para resolver os problemas criados pelo Estado Islâmico?Se não dou conta de solucionar a questão do buraco, da cobrança indevida de água, de impostos, como estou tentando solucionar algo de uma esfera/situação que extrapola inclusive limites nacionais, fechando os olhos para aquilo que é um problema na minha rotina, no meu dia a dia? 
 
Você vê o buraco todo dia na frente da sua casa, e xinga a mãe do prefeito... mas isso não resolve. Resolveria se você fosse ao paço municipal hoje, amanhã e quantas vezes fossem necessárias para a solução do problema. Você e todos os outros inconformados com a situação do município, por exemplo.  
 
Essa revolução, que deve começar em nós, passa pela mais crítica transformação humana: a de vencer o medo. Precisamos ter coragem de lutar contra aquilo que achamos errado, mesmo que seja “a luta de um homem só”. É preciso ter maior consciência da nossa efetiva responsabilidade sobre os nossos problemas e agir sobre isso.  
 
Precisamos fortalecer a percepção de que a revolução começa em nós mesmos. Lembrando, obviamente, que isso não significa que ela comece e termine conosco, afinal, o impacto das ações é coletivo, plural, global. 
 
Essa transformação revolucionária inicia no momento em que começamos a nos questionar sobre os porquês de algumas situações e também a pensar em soluções para esses porquês; quando buscamos entender quais são os papéis dos poderes constituídos, na esfera municipal, estadual e federal. O papel de cada instância. Percebendo o nosso próprio papel, e promovendo maior engajamento. 
 
Se não contratamos vários empregados domésticos para tomar conta da nossa casa, tirando o nosso filho da escola para pagar por isso, por que aceitamos que a “máquina” fique inchada dentro das esferas públicas, com cargos comissionados, enquanto nossas escolas e postos de saúde fiquem em estado lamentável? Cometemos esse tipo de distorção de valores todos os dias. 
 
Se não promovermos uma revolução individual jamais teremos mudança. Precisamos exigir que os órgãos públicos sejam transparentes, em suas contas e ações. E precisamos efetivamente atuar nesse mérito. Se preciso for, que a palavra revolução seja colocada às últimas consequências e que o representante, o síndico ou o gestor de órgão público, venha a ser afastado se não estiver agindo de acordo com o que espera a coletividade. O indivíduo público, que se propõe a trabalhar pelo coletivo, precisa ser avaliado permanente e incisivamente. Não devemos ser coniventes.

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